terça-feira, 17 de setembro de 2013

À ESPOSA 
Sotero dos Reis

Se lá na eterna glória a que voaste,
A lembrança do mundo se consente,
Aceita, alma piedosa, a dor pungente
De tudo quanto aqui idolatraste :

O esposo, a filha, os filhos que deixaste,
Em mágoas e saudade permanente,
Vivem na terra vida descontente
Des' que as corpóreas vestes tu largaste.

Ao seio de Deus, tornas radiante
De virtude e bondade, qual saíste
Imaculada de nascer no instante :

A nos queixosos neste vale triste
Volve-te como foste sempre amante,
Porque entre nos só amargura existe !


Musa Infeliz- Artur de Azevedo
Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! —
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!... 
Soneto-Artur de Azevedo
Recitado por Dias Braga no espetáculo
comemorativo do 500. aniversário do
falecimento de Martins Pena.

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena! 
Velha Anedota- Artur de Azevedo
Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? —

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo. — 
Ordem do dia- Bandeira Tribuzi
Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem vôo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna! 
Romanceiro da cidade de São Luís- Bandeira Tribuzi
PRÉ-HISTÓRIA

Na solidão do chão sem tempo
há uma ilha de expectativa,
entre dois rios, como braços,
suavemente recolhida.
Verdes copas e o vento nelas
e os cachos das frutas nativas
e as alvas coxas de suas praias
ao sol do trópico estendidas.

Vizinho o mar com sua espuma,
seu horizonte imaculado,
com sua raiva e sua ânsia,
com seu verde pulmão salgado,
misturando sua maresia
com o acre cheio do mato.
Vizinho o mar com seu mistério
e o além por ser desvendado.

o mar de onde, por milênios,
tudo que vem é rumor longo,
surdo ou cavo, manso ou severo,
cantochão grave, som redondo

contra pedras, conchas, areias,
interminável apelo em som do
horizonte que não revela 
Imagem- Bandeira Tribuzi

Vista do mar, a cidade,
subindo suas ladeiras,
parece humilde presépio
levantado por mãos puras:
nimbada de claridade,
ponteia velhos telhados
com as torres das igrejas
e altas copas de palmeiras.
Seus dois rios, como braços
cingem-lhe a doce figura.

Sobre a paz de sua imagem
flui a música do tempo,
cresce o musgo dos telhados
e a umidade das paredes
escorre pelos sobrados
o amargo sal dos invernos.
Tudo é doce e até parece
que vemos só o animado
contorno de iluminura
e não a realidade:
vista do mar, a cidade
parece humilde presépio
levantado por mãos puras
e em sua simplicidade
esconde glórias passadas,
sonha grandezas futuras. 
II POEMA ÓRFICO- Nauro Machado

O passar
do silêncio
é o caminho
para a
            VOZ
O passar
da palavra
é o caminho
para
            NADA

ENCARGO- Nauro Machado

Enterrei os cadáveres das meninas
com mãos pelo pranto decepadas.
Enterrei os seios das meninas, como limões
que guardassem os cavalos da carne.

METAMORFOSE INICIAL- Nauro Machado

Me crio em nova forma. Não
a que em quartos, corpos
gastos sofrem, tão sós,
pastos vis de um mútuo asco
solitários. Bem os sei também
distendidos, parto enfim
da morte, não a própria
(dificílima),
mas suja e dividida
com outrem. Me crio em nova
forma. Uma, incessante, dia meu, —
árduo, que sobre o piso a
comida de ontem jaz. Sabe a
tarde, loucura, carne ou
legume? No banho seu odor
me penetra — sabre.  Foi e
já não é, coube e já não
cabe: cai, ressequida, lúcido
ódio! Me crio em nova
forma. Não esta, mas outra
maior, dia meu, mais árduo,
onde meus ócios secam,
apodrecidos, no tédio
das palavras.
POEMA-Ferreira Gullar
Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                 se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
          bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
        morrem comigo.

Ou não:
       o sol voltará a marcar
       este mesmo ponto do assoalho
       onde esteve meu pé;
                                     deste quarto
       ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
           uma nova cidade
           surgirá de dentro desta
           como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido
.
PRIMEIROS ANOS
(Ferreira Gullar)

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
                     que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
           longe longe do mar
           (longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
MAU DESPERTAR- Ferreira Gullar
Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
        tenho
        riscado
de hematomas

Zonzo lavo
       na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

Janelas no Mar- Odylo Costa Filho
— No meio do mar, há janelas sobre janelas.
— A rede.
Adivinhação africana

Há sobre o mar janelas e janelas:
são redes, são cantigas e são velas.

Panos-da-costa vão se desdobrando
no mistério das águas flutuando.

A floresta é vencida pela areia
mas o mar só se curva à lua cheia.

Anda comigo, amada. O amor humano
pode descer ao fundo chão do oceano.

E ressurgir das águas e sobre elas
caminhar bem mais leve do que as velas.

O céu morreu nas mãos donas do espaço.
Resta a Terra. Tão só! Dá-me teu braço.

Vem comigo. O mar se abre à nossa dor
e os peixes pasmarão com o nosso amor.

E no silêncio móvel copiarão
nossos gestos contidos de paixão. 

Poema da simples alegria - Odylo Costa Filho

A alegria estava do lado de dentro da casca das
árvores
E subiu na manhã
A alegria me trouxe um ramo claro de acácias
Boiando numa cumbuca partida de mel.
A alegria me trouxe para perto do mar
E eu mergulhei a cabeça nos tanques da
meninice.
Onde estais, arapongas, que vos ouço e não
vejo?
Estais é no fundo do mar.
Estais é nas casas dos morros.
Estais é no ar.

Odylo Costa Filho

AS PONTES 


Doce luz de azulejo em claro céu 
entre marés, luares e telhados, 
eras, minha São Luís, estranho pássaro, 
com as asas amarradas pelas cordas 
de movediça prata dos teus rios. 
Veio o gume das pontes e as cortou. 

E as asas livres se abrem pela terra 
num espreguiçamento de alvorada. 

Erguem-se voando baixo sobre os mangues. 
São garças? São guarás? manchas no Sol. 

Levam às praias a memente rara 
de sobrados, mirantes e varandas. 
O braço do homem luta contra o pântano 
e arranca o chão dos bichos e da lama 
para estender ao sol, sobre as areias 
antes do passo humano mal trilhadas, 
doce luz de azulejo em claro céu. 
Harpa XXIV - O Inverno
(Souzandrade)
(...)

Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos

Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.

Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.

(...) 
Canto Primeiro
(Souzandrade)
Eia, imaginação divina!
Os Andes
Vulcânicos elevam cumes calvos,
Circundados de gelos, mudos, alvos,
Nuvens flutuando — que espetáculos grandes!

Lá, onde o ponto do condor negreja,
Cintilando no espaço como brilhos
D'olhos, e cai a prumo sobre os filhos
Do lhama descuidado; onde lampeja

Da tempestade o raio; onde deserto,
O azul sertão, formoso e deslumbrante,
Arde do sol o incêndio, delirante
Coração vivo em céu profundo aberto!

.............................................

"Nos áureos tempos, nos jardins da América
Infante adoração dobrando a crença
Ante o belo sinal, nuvem ibérica
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

"Cândidos Incas! Quando já campeiam
Os heróis vencedores do inocente
Índio nu; quando os templos s'incendeiam,
Já sem virgens, sem ouro reluzente,

"Sem as sombras dos reis filhos de Manco,
Viu-se... (que tinham feito? e pouco havia
A fazer-se...) num leito puro e branco
A corrupção, que os braços estendia!

"E da existência meiga, afortunada,
O róseo fio nesse albor ameno
Foi destruído. Como ensanguentada
A terra fez sorrir ao céu sereno!

"Foi tal a maldição dos que caídos
Morderam dessa mãe querida o seio,
A contrair-se aos beijos, denegridos,
O desespero se imprimi-los veio, —

"Que ressentiu-se, verdejante e válido,
O floripôndio em flor; e quando o vento
Mugindo estorce-o doloroso, pálido,
Gemidos se ouvem no amplo firmamento!

"E o Sol, que resplandece na montanha
As noivas não encontra, não se abraçam
No puro amor; e os fanfarrões d'Espanha,
Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

"Caiu a noite da nação formosa;
Cervais romperam por nevado armento,
Quando com a ave a corte deliciosa
Festejava o purpúreo nascimento."

Assim volvia o olhar o Guesa Errante
Às meneadas cimas qual altares
Do gênio pátrio, que a ficar distante
S`eleva a alma beijando-o além dos ares.

E enfraquecido coração, perdoa
Pungentes males que lhe estão dos seus —
Talvez feridas setas abençoa
Na hora saudosa, murmurando adeus. 
Elogio do Alexandrino
(Souzândrade)
Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar daltas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas dalva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond tokay, champanhe, flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
Dharpas dÉsquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir. 

Íntimo

de Humberto de Campos
Minha mãe! minha mãe! Tu, que adivinhas
esta mágoa amaríssima que eu canto,
tu, que trazes as pálpebras de pranto
cheias, tão cheias como eu trago as minhas;
tu, que vives em lágrimas, e tinhas
a vida, outrora, tão feliz, enquanto
deste teu filho, que tu queres tanto,
todas as mágoas serenando vinhas;
tu, que do astro do bem segues o brilho,
pede ao Deus que, apesar das tuas dores,
ainda persiste a castigar teu filho,
que eu não morra a sofrer, como hoje vivo,
esta angústia de uma árvore sem flores
e esta mágoa de pássaro cativo.

Beatriz

de Humberto de Campos
Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do Amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.
Tive sonhos de louco, à Fernão Dias…
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o ouro encontrei, e o ônix, e as frias
Turquesas, e esmeraldas luminosas…
E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ressábios
De amarguras, de dor, de desenganos.
Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!

Envelhecer

de Humberto de Campos
Na manhã da existência, ouvindo o peito,
que previa teu vulto no caminho,
dentro em minha alma levantei teu ninho,
e, nesse ninho, preparei teu leito.
Desceu a tarde, e ainda me viu sozinho.
Murcham as flores, que, de leve, ajeito;
de novas rosas tua colcha enfeito,
e o travesseiro, novamente, alinho.
Cai, tristonho, o crepúsculo, na estrada.
Alongo os olhos, atirando um beijo
à forma vaga do teu corpo… E nada!
Recomponho as palavras que não disse.
E, apagando a candeia do Desejo,
adormeço na noite da Velhice.

Sempre Ela

Gonçalves Dias
Eu amo a doce virgem pensativa, Em cujo rosto a palidez se pinta, Como nos céus a matutina estrela! A dor lhe há desbotado a cor das faces, E o sorriso que lhe roça os lábios Murcha ledo sorrir nos lábios doutrem. Tem um timbre de voz que n´alma ecoa, Tem expressões d´angélica doçura, E a mente do que as ouve, se perfuma De amor profundo e de piedade santa, E exala eflúvios dum odor suave De aloés, de mirra ou de mais grato incenso. E nessas horas, quando a mente aflita, De dor oculta remordida, anseia Desabrochar-se em confidência amiga, "Neste mundo o que sou? — triste clamava; "Pérsica envolta em pó, entre ruínas, "Erma e sozinha a resolver-me em pranto! "Flor desbotada em hástea já roída, "De cujo tronco as outras amarelas "Já rojam sobre o pó, já murchas pendem! "É sentir e sofrer a minha vida!" Merencória dizia, erguendo os olhos Aos céus dum claro azul, que lhes sorriam. Nada o mudo álcion por sobre os mares, E próximo a seu fim desata o canto; A rosa do Sarão lá se despenha Nas águas do Jordão: e como a rosa, Como o cisne, do mar entre os perfumes, Aos sons duma Harpa interna ela morria! E como o partir que avista a linda rosa Nas águas da corrente, e como o nauta Que vê, que escuta o cisne ir-se embalado Sobre as águas do mar, cantando a morte; Eu também a segui — a rosa, o cisne, Que lá se foi sumir por clima estranho. E depois que os meus olhos a perderam, Como se perde a estrela em céus infindos, Errei por sobre as ondas do oceano, Sentei-me à sombra das florestas virgens, Procurando apagar a imagem dela, Que tão inteira me ficara n´alma! Embalde aos céus erguendo os olhos turvos Meu astro procurei entre os mais astros, Qu´outrora amiga sina me fadara! Com brilho embaciado e lua incerta Nos ares se perdeu antes do ocaso, Deixando-me sem norte em mar d´angústias.

Canção do Tamoio(Gonçalves Dias)I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!
IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!
V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.
VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!
VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.
IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.
X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.



Se te amo, não sei!

Amar! se te amo, não sei.
Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.


Se amar é sonhar contigo,
Se é pensar, velando, em ti,
Se é ter-te n'alma presente 
Todo esquecido de mim!


Se é cobiçar-te, querer-te
Como uma bênção dos céus
A ti somente na terra
Como lá em cima a Deus;


Se é dar a vida, o futuro,
Para dizer que te amei:
Amo; porém se te amo
Como oiço dizer, — não sei. 
                                      ( Gonçalves Dias)
Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 

De Primeiros cantos (1847)
 
Gonçalves Dias


 


       Sotero dos Reis  primeiro poeta maranhense do século XIX, nasceu no dia  22 de abril de 1800 e morreu dia 10 de março de 1871, que no século exerceu a profissão de jornalista, poeta e escritor brasileiro.
       Deu lume a uma obra estritamente vinculada a assuntos filológicos; suas incursões temáticas sobre a realidade regional também decorreram num contexto de lutas políticas acirradas e instituintes do jovem Estado Nacional e de uma província inicialmente refratária às proposições separatistas do Brasil.

Humberto de Campos, poeta maranhense nascido no dia 25 de outubro de 1886, exerceu o papel de jornalista, politico e escritor. e origem humilde, era filho de Joaquim Gomes de Farias Veras e Ana de Campos Veras. Nasceu no então Município maranhense de Miritiba - hoje batizado com o seu nome. Com a morte do pai, aos seis anos, mudou-se para São Luís, onde começou a trabalhar no comércio local para auxiliar na subsistência da família. Aos dezessete, muda-se novamente para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Fez parte da Academia Brasileira de Letras  no qual  foi recebido a 8 de maio de 1920, por Luís Murat. Com a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1934, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia.


Dramaturgo e irmão de Aluísio AzevedoArthur Nabantino Gonçalves de Azevedo nasceu no dia 7 de julho de 1855. Arthur Azevedo era o filho mais velho da família e Aluísio, o segundo filho dentre os cinco que o casal Emília e David Gonçalves tiveram.
Desde cedo, Arthur Azevedo demonstrou paixão pela literatura,aos oito anos lia livros de peças teatrais da biblioteca do pai. Aos 13 anos,foi retirado da escola pelo pai e empregado no comércio. Com os colegas de trabalho,em 1869,apresentava um “teatrinho informal” na praça João Lisboa, em São Luís.
Aos 18 anos, em 1873, viaja para o Rio de Janeiro, para investir na carreira de jornalista. Arranjou emprego no jornal “A Reforma”, do maranhense Joaquim Serra, onde desenvolve uma forte e atuante carreira de jornalista.
Em 1875, ingressou na Secretaria de Obras Viárias onde trabalha com Machado de Assis. Faz grande sucesso com a peça musical “O Mandarim”. O poeta morreu no dia 22 de outubro de 1908, deixando obras que foram esquecidas, mas não perdidas.


Bandeira Tribuzipseudônimo de José Tribuzi Pinheiro Gomes, (São Luís do Maranhão2 de fevereiro de 1927 — 8 de setembro de 1977) foi um poeta brasileiro. Filho de pai português, até 1946 viveu em Portugal, estudando na Universidade de Coimbra.Iniciou o Modernismo no Maranhão em 1948, com a publicação do livro de poesia "Alguma Existência" Ao lado do ex-presidente José Sarney, Luci Teixeira, José Bento, e outros escritores, fez parte de um movimento literário difundido através da revista que lançou o modernismo no Maranhão, A Ilha, da qual foi um dos fundadores. Foi também junto com o ex-presidente o fundador do jornal O Estado do Maranhão. A canção "Louvação a São Luís", de Bandeira Tribuzi tornou-se o hino oficial da cidade.



Nauro Machado, que nasceu em São Luís, a 2 de agosto de 1935, é o nome literário de Nauro Diniz Machado. Filho de Torquato Rodrigues Machado (falecido) e de Maria de Lourdes Diniz Machado, tem dois irmãos: Mauro e Dauro. Casado com a escritora Arlete Nogueira da Cruz, tem um filho, Frederico da Cruz Machado. Nauro um poeta que ainda se encontra vivo costuma apresentar sua biografia e seus poemas na praça Nauro Machado no Centro Histórico de São Luís do Maranhão , sendo um poeta que questiona a própria essência e destinação do ser humano, sem deixar de cultivar uma linguagem poética e uma técnica de versos exemplares Sua obra apresenta traços de reflexão existencial angustiada e violenta que encontra poucas comparações na lírica de língua portuguesa.

Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias (MA) em 10 de agosto de 1823. Era mestiço, filho de um comerciante português com uma cafuza (mestiça de negro e índio), estudou Direito em Coimbra onde conheceu alguns escritores românticos portugueses,com quem estabeleceu relações importantes para a sua formação intelectual como poeta. Em Portugal escreveu a famosa poesia Canção do Exílio. Gonçalves Dias morreu em um naufrágio do Ville de Boulogne, navio no qual estava no dia 3 de novembro de 1864 sendo o único passageiro que não sobreviveu.

Poeta e teatrólogo brasileiro nascido em São Luís, Maranhão, que com uma poesia de cunho social tornou-se um dos mais importantes poetas brasileiros surgidos após o movimento modernista.O quarto dos 11 filhos do comerciante Newton Ferreira e de Alzira Ribeiro Goulart, foi educado em um colégio católico de São Luís.Entrou para  Escola Técnica de São Luís (1943) e a partir de sua primeira paixonite, aos treze anos, decidiu ficar recluso dentro de casa lendo e escrevendo poemas. Ao ganhar (1945) um concurso de redação sobre o Dia do Trabalho, em sua escola, resolveu que se tornaria um escritor. Conseguiu publicar em um jornal seu soneto O trabalho (1947) e, no ano seguinte (1948) passou a colaborar no suplemento literário do Diário de São Luís. destaques em sua obra foram Dentro da noite veloz (1975), com poemas escritos nos últimos 13 anos (1961-1974), Na vertigem do dia (1980), Sobre arte (1984), Etapas da arte contemporânea (1985), Barulhos (1987) e Indagações de hoje (1989). 


Joaquim de Sousa Andrade nasceu no Maranhão aos 9 de julho de 1833. Viajou por vários países, como: Inglaterra, América Latina, Estados Unidos e França, cidade na qual se formou em Letras pela Universidade de Sorbonne. Ignorado por todos morre isolado e na miséria, em 21 de abril de 1902.Seu longo poema narrativo “Guesa errante” é sua obra mais importante e compreende a lenda de um adolescente sacrificado para servir de oferenda a deuses, contudo, escapa e foge para Nova Iorque, onde começa a conviver com os capitalistas. Um grande poeta com uma grande obra.



Odylo Costa Filho nasceu em 14 de dezembro de 1914 e morreu em 1979, nascido em São Luís do Maranhão, mudou-se ainda jovem para o Piauí, onde conheceu D. Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa com que se casou sob a benção de três grandes poetas que fora: Ribeiro Couto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Formou- se em direito na cidade do Rio de Janeiro aos 16 anos de idade, e foi secretário de imprensa do Presidente Café Filho e fez parte da Academia Brasileira de Letras, teve grandes obras como Graça Aranha e outros ensaios na qual ganhou o Prêmio Ramos Paz, lançou a Faca e o Rio que se deu em uma novela traduzida para o inglês por um professor da Universidade de Leeds e foi adaptada ao cinema por um Holandês da época... Um poeta conhecido Maranhense de grande nome. 

domingo, 8 de setembro de 2013

Maranhão, um berço de grandes poetas.  No blog iremos destacar nove grandes poetas maranhenses e suas obras, poetas como: Sousândrade, Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, Gonçalves Dias, Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi, Artur de Azevedo, Humberto de Campos, Sotero dos Reis. O blog também destacará um pouco da biografia de cada um dos poetas citados.